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Herdeiros do quilombo fazem samba em Pirituba

Por: Rosana Pinto - 01-01-2013

Prova de Fogo é uma escola de samba que nunca esteve no Grupo Especial. O seu desfile nunca foi transmitido pela Rede Globo. Logo, celebridades não se candidatam a ser rainha de bateria e os recursos são pequenos. Os ensaios são de graça, mesmo assim não atrai muitos visitantes. Quem há 38 anos coloca a Prova de Fogo na avenida é a própria comunidade da Vila Mangalot, em Pirituba, Zona Oeste na capital. Apesar das adversidades, a escola nunca deixou de sair. Não é por acaso que o slogan da agremiação é “resistência cultural”.

O histórico de luta na Vila Mangalot não é de hoje. Historiadores tentam provar que na região de Pirituba existiu o primeiro quilombo urbano do país. Uma das versões diz que escravos escapavam e eram acolhidos na área da Fazenda Anastácio, da Marquesa de Santos, ex-amante do imperador Dom Pedro 1. Nesse local fica hoje a Vila Mangalot. O tema será o enredo da Prova de Fogo em 2013.

“A Prova de Fogo é a consequência do quilombo. Acredito que a concentração de negros na Vila Mangalot se deve a isso. Queremos mostrar a evolução do negro na sociedade”, diz o engenheiro Ivan Lima, de 41 anos, presidente da escola. Ivan está na escola desde os 3 anos. Começou desfilando como mascote, uma figura que existia antigamente nos desfiles. Eram crianças que “ sambavam” à frente das baterias. Dos 11 aos 33 anos, foi mestre-sala. Aprendeu a tocar todos os instrumentos e passou a ajudar na diretoria. O avô e os pais sempre estiveram no comando da escola. “Não assumi por uma questão de dinheiro. Na verdade, a gente gasta o que não tem. Assumi um legado da família”, diz Ivan, que se orgulha de também ser um dos poucos presidentes negros das escolas em São Paulo.

Mãe de Ivan, Maria Cristina Lima, de 63 anos, agora é evangélica e não frequenta mais as rodas de samba e os ensaios da escola. Mas ainda se emociona ao falar da tradição. “O Carnaval é o folclore do negro”, diz. Cristina enfatiza que o Carnaval é cultura. “O desfile é um teatro ambulante, que tem todos os atos”, explica, ao acrescentar o quanto se aprende na preparação dos enredos. “O samba tem uma história. Não é só ir com o corpo lá. Antes de ir para a avenida é preciso ir à biblioteca pesquisar. Escola de samba forma para a vida. Ninguém sai dela leigo.” Proibida de ensaiar na rua e sem quadra, escola improvisa A Prova de Fogo começou improvisada em uma casa na Avenida Elisio Cordeiro de Siqueira. Para os ensaios, a diretoria fechava a rua e a escola treinava para o grande dia. Há oito anos os ensaios em via pública estão proibidos.

A agremiação também está sem quadra. A solução encontrada pela escola é fazer ensaios itinerantes. Toda semana o mestre de bateria, Vinícius Santos, e seus ritmistas vão ensaiar onde estão as alas da Prova de Fogo. No sábado, dia 1, uma roda de samba nos fundos de restaurante na Avenida Elisio Cordeiro de Siqueira reuniu parte da comunidade. O clima era de reunião de família.

A maioria dos integrantes declarava pertencer à escola há mais de 30 anos. Erica Roberto Nemo Gigante, de 38 anos, e 35 de escola, estava com a família. O marido Carlos Henrique da Silva, 41, e a filha Isabela, 19, são ritmistas. A caçula Jéssica, 7, que possui síndrome de Down, deve desfilar pela primeira. Durante a roda de samba ela já se arriscava no tamborim. “Às vezes ela também fica na frente da bateria. A escola mantém a família unida”, diz.

Na Prova de fogo há aulas de percussão e bateria. O grupo de capoeira Cordão de Ouro, do mesmo bairro, se integrou à escola. Para ir para a avenida a comunidade ajuda a fazer carros, fantasias e alegorias. “A escola de samba é a única opção de lazer e entretenimento na periferia. É a oportunidade de cidadania para a classe C, D e E”, diz o presidente Ivan Lima.

Fonte: Diário SP (Texto de Jussara Soares)



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